Sendo cenário

Você já parou pra pensar aonde que os programas musicais arranjam aqueles jovens que ficam na platéia, atrás do cantor? Saiba que a resposta é: faculdades de comunicação.

Semana passada apareceu um anúncio na frente da Com-arte dizendo que os estúdios da Trama iam fazer um programa de televisão, e quem quisesse ir participar era só falar com fulano. Como o cartazinho prometia que o Lenine ia estar lá (o Pedro Mariano e o Berimbrown também, mas isso não contava), mais que rapidamente resolvi entrar nessa, afinal um showzinho de graça não faz mal a ninguém.

Ontem eu cheguei na faculdade de manhã e não estava tendo aula, por causa de uma paralização. Fiquei enrolando a manhã inteira, até encontrar o pessoal que ia pro programa, subir no ônibus e ir pro estúdio. Eram umas trinta pessoas, que uma vez no estúdio foram levadas para uma salinha onde ficava a ralé. Em uma hora e meia de confinamento voluntário tivemos que assinar um contratinho cedendo nossos direitos de imagem para todo sempre para qualquer coisa que quisessem fazer com ela, e recebemos um lanchinho mixuruca. Depois de muito esperar, fomos levados em grupos de dez para o lugar onde seria a gravação.

As mocinhas do programa espalharam a gente em volta dos lugares onde os artistas iam tocar; eu fiquei num lugar bem no meio. Mais um pouco de espera sem fim e chegou o João Marcelo Bôscoli, agradecendo a todos, e dizendo que dentro em pouco os artistas iam começar a gravar, e que os artistas em questão eram o Pedro Camargo Mariano, o Berimbrown, e o Criminal.

A reação geral e unânime foi "E O LENINE?!". O Lenine teve problemas e não veio do Rio de Janeiro pra gravação desse programa. Todos se olharam com uma cara de vamos embora? Mas ficamos, só pra sofrer o martírio de Mariano.

É impressionante como o Pedro Mariano consegue ser chato. Em todos os sentidos figurados de chato, já que a barriga não permite que seja no sentido concreto. Ele começou a tocar as músicas chatinhas dele, cheio de uns trejeitos não só repetitivos como bem babacas mesmo. Ele tem mania de rolar os olhinhos quando está cantando, não é possível que ele ache que isso é bonito. E o pior é que várias vezes ele resolveu regravar uma música por causa de algum erro lá, o que só prolongava nosso tormento.

Sem falar que como animador de platéia ele tem uma bela voz. Tanto ele como o Berimbrown têm a "Fazendo música, jogando bola" no repertório, e o povo do programa teve a genial idéia de fazer os dois cantarem a música, um depois do outro, pra fornecer "dois pontos de vista sobre a mesma peça". Péssima idéia. O Berimbrown começou a tocar, e a platéia, que já estava começando a dormir babando no ombro do cara ao lado, acordou e se animou um pouco. Nada que resistisse ao efeito narcotizante do tio Mariano, que fez sua versão logo em seguida. Vendo isso, o diretor achou melhor os dois cantarem junto, o PM cantando a versão do Berimbrown junto com eles.

Realmente é um problema quando seus backing vocals são muito mais legais que você.

Nesse ponto já eram cinco e tanto da tarde. Todos nós tínhamos ido lá com a promessa de ir embora às cinco. Quem tinha como deu no pé. Quem não tinha ficou sendo rearranjado na platéia pra tapar os buracos deixados pelos que se foram.

O show do Berimbrown foi muito bom, o som que eles fazem é bem interessante. Infelizmente a isso se seguiram uma apresentação de drum’n’bass, e o Criminal. Nada contra eles em si, mas a essa hora tudo que eu queria era ir embora. Infelizmente isso estava aparente em todos, e o diretor fazia regravar as seqüências em que a platéia estava muito desanimada, pedindo que todos tratassem de fazer cara de que estava curtindo. Todos parafusavam os sorrisos na cara, torcendo que assim isso acabasse logo.

Finalmente às sete e meia da noite a gravação acabou, recebemos de novo o lanchinho do almoço, efusivos agradecimentos e um pedido para que viéssemos na gravação de mais programas. Hmm. Pode até ser. Mas espero que pelo menos o Lenine venha, então.