O autor do qual eu tenho mais livros na minha estante é o Neil Gaiman. Não só tenho toda a coleção do Sandman, como também tenho quase todos os outros quadrinhos que ele escreveu, e todos os livros que ele já lançou. Um investimento um tanto caro que eu venho fazendo desde 1995, e do qual eu tenho muito orgulho.
Assim sendo, eu não podia deixar de ir hoje na FNAC, às seis da tarde, onde ele estaria esticando sua visita ao Brasil (ele veio pra Bienal do Rio de Janeiro) numa sessão de assinaturas para promover a versão em português do Book of Dreams.
Eu já estava sabendo que ele vinha para cá fazem uns dois meses, mas só vim a ter certeza do onde e quando duas semanas atrás. Foi quando eu comecei a ter noção do quão não desconhecido meu querido autor era, pois de repente tinha um monte de gente comentando e perguntando se eu estaria lá. Começando a desconfiar de que essa sessão teria muita gente, resolvi chegar na FNAC, que é perto de casa, às quatro e meia da tarde, pra conseguir lugar na frente.
Encontrei a fila já um pouco grandinha, mas nada drástico. Sentei no chão e comecei a esperar, cercado de todo tipo de gente. Muita, muita gente feia, é impressionante, o uglyface.com ia fazer a festa nesta fila. Eu vi duas pessoas com a Death tatuada no corpo, exibindo orgulhosamente as tatuagens numa das poucas ocasiões em que não precisavam explicar quem era aquela garota que eles desenharam no corpo, e talvez fossem até invejados. Muitas meninas, um pouco mais razoáveis, apenas se fantasiaram de Death, vestindo preto e desenhando uma espiral no canto do olho.
Eu particularmente estava cercado de nerds.
Em pouco menos de meia hora a fila cresceu de forma assombrosa. O barulho e a multidão foi aumentando, até que uma mocinha anunciou que o Neil já estava lá e que logo apareceria para ler uma história. Nos ansiosos dez minutos que se seguiram, qualquer palavra em inglês que saía dos alto-falantes fazia o povo todo silenciar imediatamente. O que era até meio engraçado, já que vinham de uma repórter que o estava entrevistando, e não do Mr Gaiman em si.
Pouco depois chegou uma tia lá querendo botar ordem em tudo, dizendo que só ia deixar assinar um livro, que, como ele era muito simpático, era pra falar pouco com ele porque ele não ia interromper a conversa, e que podiam dar as máquinas pra ela mesma quando chegasse a hora, que ela tirava as fotos. Só faltou falar pra fazer fila colocando as mãos nos ombros do coleguinha da frente.
Quando Neil Gaiman entrou, como era de se esperar, todos começaram a aplaudir. Ele imediatamente tomou controle da situação, pediu pro pessoal da frente se sentar no chão para que todos pudessem vê-lo, pediu desculpas por não saber falar português e disse que leria algo rapidinho. Perguntou se nós preferíamos que ele lesse um pedaço do Dream Hunters, que já foi publicado, ou do American Gods, que ainda vai sair. A última opção foi a escolhida quase com unanimidade; ele perguntou se nós sabíamos quem era a Lucille Ball, e, obtendo uma resposta afirmativa, começou a ler um trecho do livro.
Teve muita gente que ficou meio revoltada com o fato de que ele ia ler uma história pro povo, o que sinceramente me surpreendeu. Acho que esta é uma iniciativa muito simpática dele, sem falar que é interessante saber como que o autor lê o texto. É bastante diferente de como eu o leria, por exemplo, tem pedaços que ficam mais irônicos e engraçados do jeito que ele lê. É algo melhor do que o Saramago, por exemplo, que deixou o Raul Cortez ler um trecho de A caverna, quando foi dar autógrafos. Eu preferiria que ele mesmo tivesse lido o livro, nem que fosse só pra sentir o sotaque português. Mas enfim, aqueles que se revoltaram, em sua imensa maioria, ficaram assim porque não entendiam patavine de inglês, e para eles a leitura era apenas um tempo a mais que ia demorar até que a fila começasse a andar. Para esses, tudo que eu posso dizer é que o CNA fica no quarteirão ao lado, move your fat ass and start learning English, idiots.
Terminada a leitura, ele começou a assinar os livros, e a fila começou a andar. Muito. Len. Tamen. Te. Até porque o autor, com toda sua simpatia, conversava com as pessoas, cumprimentava, tirava foto, etc. etc. A tia catou o microfone e ficava dizendo que era pro povo já vir com o livro aberto, pra escrever o nome em letra de forma num papel pra não perder tempo soletrando, pra não gastar todo o filme da máquina no fundo da fila que na frente era melhor pra tirar fotos, e pra esperar a tinta dourada com a qual ele estava assinando os livros de páginas pretas secar antes de fechar os livros. Esse último recado ela fez questão de dizer várias vezes.
Fiquei eu ensaiando o que ia falar pra ele na uma hora que demorou até ser a minha vez. Corajosamente avancei com a minha pilha de livros, apertei a mão dele e disse "Hello!"
"Hello!", ele disse.
"My name is Marcio", disse eu, mostrando o papelzinho. Ele catou a caneta dourada e assinou a capa do CD dele que eu levei.
"I’m the one who asked to publish your text about editors", continuei.
Pequena pausa. Eu olhei pra ele e vi que ele tinha cabelo castanho claro, como assim, nas fotos o cabelo parece preto, o Sandman tem cabelo preto, também, todas as fotos dele são em preto-e-branco, é lógico que parece preto.
"Oh yea", ele disse, assinando o Neverwhere, com dedicatória e tudo mais. "Has it been published already?"
"Not yet, hopefully it’ll be out by the end of July," disse eu, empurrando o Smoke and Mirrors. A tia começou a reclamar que era um livro só. "Please do sign it", eu pedi.
"I can’t, the lady has screamed at me for doing it a couple of times already, I still have six hundred more pages to sign tonight", ele disse, assinando o livro mesmo assim. Daí ele olhou pra mim, eu disse "ok, look to the camera for the photo", e notei que ele tinha olhos verdes, como assim, nas fotos eles pareciam pretos, quando não estão atrás dos óculos escuros, o Sandman nem olhos tem direito, também, todas as fotos dele são em preto-e-branco, é lógico que parecem pretos.
A tia tirou a foto, eu agradeci, e quase indo embora perguntei se ele não estaria indo logo pra Montreal. Ele disse que estaria indo pra Vancouver, Toronto e Winnipeg. Eu agradeci e saí, com os livros na mão. Quando eu parei um pouco depois pra guardar tudo na bolsa, notei que tinha colocado o caderninho do CD entre os dois livros antes da tinta dourada secar e que tinha borrado um pouco. Fui embora antes que a tia visse e dissesse "eu te disse! eu te disse!".
Ele escreveu "Marcio – Mind the gap! Neil Gaiman" no Neverwhere, o que é bastante apropriado, já que grande parte do livro se passa no metrô de Londres. No outro ele só assinou o nome.
Desci a escada rolante do terceiro andar da FNAC e fui acompanhando a fila, que seguia na outra escada rolante até o segundo andar. Até o primeiro. Até o térreo. Enquanto eu olhava os CDs, anunciaram que a loja fecharia em quinze minutos (às oito, e não às dez, como acontece normalmente). Os funcionários, contentes da vida, diziam que isso estava acontecendo para que a fila parasse de crescer. E eu que achava que Neil Gaiman era quase desconhecido no Brasil.