Alma e armazém

Uma das principais características tanto da minha coleção de CDs como da do Danilo é o enorme número de cantoras, muito maior do que o de cantores. Cássia Eller, Gal Costa, Tori Amos, Björk, quase qualquer uma.

Naquele dia, dois anos atrás, em que teve o blecaute, ele estava no show da Marisa Monte em Campinas, enquanto eu estava lavando o meu apartamento em São Paulo. Ele teve a chance de ficar me fazendo inveja durante várias semanas. Mas como a vingança é um prato que se come frio, agora que ele está nos EUA eu pude retribuir em dobro.

Duas semanas atrás eu abri a Vejinha e vi um anúncio enorme do novo show da Zélia Duncan. Já que eu estava com uma grana sobrando, eu resolvi que já estava na hora de começar a usufruir destas facilidades de se morar numa metrópole e ir assistir ao show.

Dois dias depois fui até o DirecTV Music Hall, munido de carteira de estudante, comprar o ingresso. Quando olhei a tabela de preços no caixa, vi que não só tinha o show da Zélia Duncan naquela sexta, mas também tinha o da Ana Carolina na próxima. Também tinha o da Wanessa Camargo entre um e outro, mas não só ela não vale o esforço como também o ingresso pro show dela custava o dobro do das outras. Então comprei só dois ingressos, e deixei a Wanessa Kamargo para as leitoras da Contigo! gastarem as economias do semestre.

Três dias depois lá estava eu de novo, para o show da Zélia Duncan. Cheguei meia hora antes, pedi orientação para encontrar o meu lugar entre o mar de mesinhas, sentei e fiquei esperando o show começar, sem consumir absolutamente nada. Depois de ver vários comerciais da DirecTV no telão, eles anunciaram a ficha técnica do show, apagaram as luzes e acenderam os holofotes. O show foi muito bom, o cenário era simples mas bonito, a banda era muito boa e a cantora também. Ela cantou músicas do disco novo, alguns sucessos antigos e algumas músicas que ela compôs e/ou cantou com outros artistas (incluindo a que escreveu com a Rita Lee, "Pagu", que tem um refrão que eu adoro: "Nem toda feiticeira é corcunda / Nem toda brasileira é bunda / Meu peito não é de silicone / Sou mais macho que muito homem").

Depois de um pouco menos de duas horas, o show acabouu e teve o bis. O bis é uma parte de todos os shows que eu acho meio marmelada. Todo mundo já supõe que vai ter bis mesmo, o artista finge que vai embora mas não vai, a platéia pede mais músicas porque sempre se pede mesmo, não tem emoção nem suspense. Quando eu cantava em coral, por exemplo, o bis era um pouco mais emocionante, porque tinha vezes que a platéia não pedia bis, e a gente, que tinha a intenção só de fingir que ia embora, acabava tendo que ir embora mesmo.

Depois de tudo terminado, fui eu pra porta do camarim, entrar na fila e esperar pra pedir um autógrafo. Uma hora de espera mais tarde os seguranças deixaram o povo entrar em grupos de vinte, e fomos todos encontrar Zélia Duncan pessoalmente. Ela foi muito simpática, conversou com todos, parecia realmente feliz de receber os fãs (apesar de já serem quase duas da manhã, e ter mais uns cem fãs pra receber ainda), tirava foto, assinava CD, dava beijo, enfim, tudo que os tietes podiam querer. Levei uma caneta de tinta permanente, e contei pra Zélia a razão da supercaneta: quando eu fui pro show do Cordel do Fogo Encantado, na hora de pegar autógrafo, a bic não escrevia de jeito nenhum no encarte do CD, e o coitado do baterista ficou lá cavando sulcos no encarte, inutilmente. Saí de lá com o disco (o disco mesmo) autografado "Para Marcio, música e alma, Zélia Duncan".

No show da Ana Carolina eu já tinha uma noção melhor de onde eram os lugares, e não precisei de ajuda pra encontrar meu lugar. Cheguei meia hora antes do show também, mas desta vez os lugares à minha volta já estavam todos ocupados. Quinze minutos de observação depois eu notei que estava cercado por casaizinhos de lésbicas, todas felizes da vida que iam assistir à Ana Carolina. Foi uma delas que me deu a notícia de que a AC tinha sofrido um acidente e quebrado o pé (ou algo assim), e que ia fazer o show todo sentada.

Se com ela sentada o show foi como foi, eu imagino como deve ser com ela andando. Simplesmente fora de série. A voz da Ana Carolina é impressionante, muito forte, muito expressiva. E ela mandava ver mesmo estando sentada, posição muito ruim para cantar, principalmente cantar alto. A Ana Carolina cantava as músicas animadas bem animadamente, as tristes com um sentimento de partir o coração, e ainda leu textos e poemas (um deles eu sei que era da Ana Cristina César), contou casos.

O bis nesse show foi mais besta ainda, porque, como ela estava de pé quebrado, ela nem pôde fingir que ia embora; a cortina fechou e abriu logo em seguida, e ela começou o bis tocando pandeiro.

Assim que o bis acabou eu fui de novo pra porta do camarim. Foi então que eu pude notar como os fãs desse show eram diferentes, apesar de provavelmente serem mais ou menos os mesmos. Em vez da fila organizadinha e quietinha que eu tinha encontrado no show da Zélia Duncan, eu me achei cercado por lésbicas em polvorosa, todas querendo ficar na frente da fila, reclamando que tinham chegado antes e que as outras que estavam tumultuando deviam ir pro fim da fila. Demorou uma hora até que conseguissem fazer uma fila decente. Quando essa façanha estava feita, chegou a informação de que a Ana Carolina estava indo embora e não ia dar autógrafo. Ninguém acreditou, porque os seguranças estavam ameaçando não deixar ninguém entrar desde o fim do show. Ficaram todos lá ignorando os seguranças por um tempo, depois começaram a querer brigar com os seguranças, e por fim começaram a xingar a Ana Carolina. Sem pensar de que ela tinha todo direito de estar cansada, com o pé quebrado e com vontade de descansar um pouco sem ficar até as três da manhã assinando encarte de CD.

Tá, eu fiquei triste de não ter conseguido autógrafo nem foto, mas fazer o quê? As lésbicas queriam cercar a van da banda e pegá-los de refém até que a Ana Carolina arrastasse a perna engessada de volta pro camarim e desse autógrafo. Eu fui atrás de um táxi pra voltar pra casa. O mais importante, que era assistir a um puta show e ter com o que fazer inveja ao Danilo, já estava feito.